Monday, January 11, 2010

Momento: a duas vozes (parte VIX)


ELE

Sentia -me inquieto. Sabia que uma decisão precisava de ser tomada, mas sentia-me completamente amedrontado perante o facto de a ter que tomar. Olhei para Marylin, estavamos ambos no sofá, ela deitada, sua cabeça repousando nas minhas pernas. Que delicia era olhar para ela assim. Todos os dias agradecia o facto de as nossas vidas se terem cruzado. Não pode deixar de sentir uma angústia latente com receio do que a vida nos reservava. Desde a morte de Marina que fugia de todas as situações em que pudesse voltar a ficar emocionalmente dependente de alguém. Mas destas coisas não se pode fugir não é? Quando menos esperamos a teia encontra-se tecida e de tal forma que não nos conseguimos soltar. Tinha medo, muito medo de a perder. Deve acontecer a toda a gente que perde alguém que ama, este medo incontrolável de que venha a amar novamente. E a vida lhe roube essa pessoa. Terrível mesmo. Tentei afastar as nuvens negras que teimavam parar sobre nós. Por momentos meu pensamento foi até Mariana. Mariana doce e querida, amiga incondicional, não merecia partir tão cedo. Sentia saudades dela, um tipo de saudades que nunca iria saciar novamente. Amava ambas, ambas faziam parte de mim. Mas ao meu lado neste momento tinha Marylin, e eu tinha que pensar no presente e não viver no passado. Nunca esqueceria Mariana, nunca mesmo, mas tinha chegado a altura de seguir em frente. Tinha mesmo. E eu estava disposto a seguir.
O telefone tocou interromependo os meus pensamentos. Olhei para o visor. Era a mãe de Mariana. Marylin acordou com o barulho do telemóvel. Levantou-se esperguiçando-se, estava com o cabelo todo despenteado, parecia uma criança travessa. Sorri, enquanto atendia o telefone.
- Olá Ana como está? - saudei mal atendi o telefone
- Está tudo bem Helder. E contigo também?
- Sim tudo em ordem. Estava mesmo a pensar ligar-lhe. Queria confirmar como é do próximo fim de semana, posso ir buscar a menina como combinado?
- Era mesmo por isso que queria falar contigo. Eu e o Pedro temos algo combinado para o fim de semana, queria saber se não te importas de vir buscar a menina antes na sexta, dava-nos mais jeito assim,
- Não há problema, sexta á noite, vou buscá-la então. Como está a minha pequena?
- Neste momento já dorme, mas está bem. Já vai balbuciando algumas palavras. Já diz mamã....
Senti uma pontada forte no peito. Não concordava com o facto de Ana obrigadar a menina chamá-la de mamã. Já tinhamos discutido o assunto várias vezes, Sofia tinha mãe, não fazia sentido chamar mamã á Avó. Eu não concordava, mas pelos vistos o que eu achava não interessava, pois Ana tinha seguido com a sua intenção avante. Fingi que não tinha percebido.
- Estamos combinados então, sexta aí estarei. Prepare o saquinho dela, provavelmente iremos dar um passeio também.
- Mas vê por onde andas com a menina, ela tem horários rigorosos para serem cumpridos, não quero que alteres o dia -a-dia dela, senão depois vai custar a entrar no ritmo novamente.
- Não se preocupe Ana, eu sei o que faço. Vemo-nos sexta então.
- Até sexta
Desliguei. Olhei para Marylin que fingia não ter ouvido a conversa. Via-a brincar com o fecho da almofada, ora fechava, ora abria. Já conhecia estes sintomas. Ela fazia isto sempre que algo a preocupava ou deixava agoniada.
- Que se passa? - perguntei enquanto a puxava para perto de mim. Encostou sua cabeça no meu ombro, ficou calada por uns segundos, eu sentindo que ela queria dizer algo, mas estava a medir as palavras.
- Hmmm, não pude deixar de ouvir a conversa. Vais ter a menina este fim de semana?
- Sim. Este fim de semana é meu.
Tornou a abrir e a fechar o fecho da almofada. Estava inquieta denotei pelo seu comportamento.
- Helder, eu... olha... tu por acaso esqueceste-te que tinhamos reservas para passar o fim de semana fora?
Olhei para ela, sorri levemente.
- Achas que me ia esquecer disso?
- Mas e a menina? - perguntou, seus olhos incrédulos pousados em mim.
- A menina vai conosco claro. Já liguei para o hotel e pedi para alterar a nossa reserva. Vão incluir um berço no quarto. Não te importas pois não?
Sua expressão denotava incredulidade. Senti que a consegui surpreender totalmente. Por momentos cheguei a recear que não tivesse gostado das alterações nos planos, se bem que não tinha havido alterações eu é que tinha ocultado alguns factos. Abraçou-me, deu-me um beijo repleto de emoção.
- Era o que eu mais queria! Conhecer a tua menina!
- E vais conhecer claro! Marylin, tu e eu estamos juntos, para o que der e vier. Sofia faz parte da minha vida. Por isso quero que as duas mulheres mais importantes da minha vida se conheçam, comecem a gostar uma da outra. Apercebi-me que quando mais cedo fôr melhor. Sofia é pequena ainda, terá mais facilidade em lidar agora com a situação do que quando fôr mais velhinha.
- É isto mesmo que queres?
- É isto que quero. 100% certo do que estou a fazer.
- E se ela não gostar de mim?
- Como poderia ela não gostar de ti? Toda a gente gosta de ti! Ela vai adorar-te vais ver.
Afaguei seus cabelos, enquanto a encostava a mim. Senti o seu coração bater forte. Ambos estavamos em sintonia do que nos esperava. Para o bem e para o mal, os dados estavam lançados. Agora era só deixar o destino seguir seu curso.

8 comments:

Brown Eyes said...

" Mas vê por onde andas com a menina, ela tem horários rigorosos para serem cumpridos, não quero que alteres o dia -a-dia dela, senão depois vai custar a entrar no ritmo novamente."
Bela por esta frase nota-se o quanto conheces bem as pessoas. És uma boa observadora. Denota uma avó possessiva que julga ser a única capaz. Vai haver problemas, aí se vai. Muito bom. Continua. Beijinhos

Libelinha said...

Concordo com a Brown Eyes... Faço das minhas palavras as dela!...

Beijinhos ;P

Dri Viaro said...

Oi, passei pra conhecer o blog e desejar bom dia
bjss

aguardo sua visita :)

Silvana Nunes .'. said...

Olá, boa tarde.
Sou professora, pesquisadora e contadora de histórias.Vivo de blog em blog angariando leitores e tentando divulgar o meu pelo simples fato de perpetuar a história de meu país - tenho medo que ela seja engolida por toda essa globalização.
Se gostar de meu esdpaço e achar minha proposta coerente, por favor SIGA-ME nesta luta por um mundo melhor.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... está convidando para conhecer uma lenda bastante contemporânea - a do pássaro-cabeça-de-vento.
É só clicar no link http://www.silnunesprof.blogspot.com que você chega até lá rapidamente.
Gostaria que tivesse um pouquinho mais de paciência comigo, estou com alguns probleminhas para resolver: preciso de um novo exame de vista e de um monitor novo, o meu está meio embaçado, já tentei regular, mas o problema está com ele mesmo, tenho de comprar outro. E agora não me encontro em condições disso - só eu sei o sacrifício que faço para postar as histórias.
Se já passei por aqui, mil perdões. Como disse, a falta dos meus óculos e esse monitor com problemas não me deixam enxergar direito.
Que os bons ventos soprem a seu favor neste ano de 2010.
A PAZ .
Saudações Florestais !

A.S. said...

Gostei do estilo da escrita!!!
Adorei a criatividade!


Beijos
AL

Poetic GIRL said...

Brown Eyes: É a avó é um bocado dura não é? Vamos ver como correm as coisas...

Libeinha: LOL, uma avó mázinha... ai

Dri: sim passarei por lá.... bjs

A.S: Bem bvinda! Ainda bem que gostas-te! bjs

Natália Augusto said...

Ainda não tinha tido tempo para conhecer este blogue.

Este conto promete. Tem um bom enredo, personagens concretas e que retratam a realidade familiar do século XXI.

Gostei muito e vou voltar. Gosto de narrativas e de poesia.

Beijinhos

Poetic GIRL said...

Natália: É a minha primeira experiência a sério a contar um conto. Estou a adorar e a vossa receptividade tem sido muito boa. Aparece mais vezes... bjs