Sunday, March 7, 2010

As formas do AMOR


A menina caminhava lado a lado com a mãe. De mãos dadas caminhavam apressadas. Moravam há pouco tempo nas redondezas, por isso a criança sentia-se curiosa em relação a tudo ao seu redor. Olhava para todos os lados com curiosidade. A mãe puxava por ela, obrigando-a a correr por vezes para conseguir acompanhar os passos apressados da mãe. Chamou-lhe a atenção uma casa na vizinhança, já nos dias antecedentes reparara que uma senhora idosa se encontrava sentada no alpendre com um livro na mão. Hoje estava lá novamente. Um certo fascinio atravessou o espirito da menina, sentiu uma curiosidade extrema em relação ao que levaria uma senhora daquela idade, áquela hora da manhã, quer fizesse chuva, quer fizesse sol sentar-se no alpendre. Ao fim do dia quando regressava da escola a velha senhora ainda ali se encontrava sentada no mesmo lugar, como se fosse um quadro pintado por um pintor qualquer, o cenário que se via de manhã era o cenário à noite. Viveria sózinha? Não comia? Que estaria a ler? Quando chegava a casa a menina corria para o seu quarto e ficava ali à espera de ver a senhora se recolher. Que o fazia quase sempre apenas quando já estava demasiado escuro para ler. Pegava então no seu livro e entrava em casa, fechando a porta. A menina ficava então ali a olhar aquela casa, pensar naquela senhora, imaginando mil e um cenários para o que se passaria dentro daquela casa. Fascinava-a o ar de mistério que rodeava a velha senhora.
No dia seguinte a sua mãe sentiu-se mal disposta. Com relutância conseguiu convencer a menina que estava bem e mandou-a seguir sózinha para a escola. A menina saiu corajosa de casa. Era a primeira vez que saía sem a mãe nesta cidade nova, completamente desconhecida, que lhe causava arrepios. Desde que se tinham mudado ainda não tinha havido praticamente nenhum dia de sol, sempre muito cinzento, escurso, como se todos os dias fosse chover. Isso entristecia a menina. Caminhava discreta pelo passeio quando olhou para a casa da vizinha. Já se encontrava sentada no seu alpendre. A menina ficou ali uns minutos a olhar lá para dentro. De repente o olhar da velha senhora encontrouou os olhos da menina. Fez-lhe sinal com a mão para se aproximar. A menina olhou á sua volta, seu coração batendo descompassado, respirou fundo e atravessou o jardim até á casa da velha senhora. Pousou a sua mochila e entrou no alpendre.
- Olá minha querida - cumprimentou a velha senhora com voz rouca, quase imperceptível.
A menina sentiu-se envergonhada, inibida. Não sabia se era certo estar ali. A senhora ainda era mais velha do que a menina imaginava. As rugas eram notórias no seu rosto, no seu pescoço, até as suas mãos tinham um aspecto envelhecido, que idade teria? Naquele rosto velho e cansado, os olhos esses eram de uma vivacidade nunca antes vista. A menina mergulhou dentro daquele olhar. Sentiu-se estremecer.
- Olá - balbuciou.
- Tenho reparado que passas por aqui todos os dias, vais a caminho da escola é?
- Sim vou. A minha mãe costuma ir comigo, mas hoje está mal disposta.
- Espero que melhore. Senta-te aqui ao meu lado um bocadinho.
A menina sentou-se ao lado da senhora. Seu olhar pousou no livro que a senhora segurava no colo. " A história do Amor, Nicole Krauss". A capa era bonita, colorida, tal como a menina gostava.
A senhora sentindo que a menina olhava o livro perguntou-lhe:
- Gostas de ler querida?
- Gosto muito - respondeu a menina - Mas aqui nesta casa não tenho livros. Tive que os deixar na outra casa, quando nos tivemos que mudar.
- E porque não os trouxeste contigo?
- É complicado explicar - respondeu a menina. Ficaram em silêncio as duas. A menina mordeu o lábio.
- Eu não gosto de livros que falam de amor. - comentou a menina baixinho, quase inaudível.
- Porque não? - perguntou a senhora
- O Amor só faz sofrer. Eu não quero sentir o Amor nunca na minha vida. - respondeu a menina.
A velha senhora ficou alguns minutos sem saber que responder. Uma criança que dizia que não queria sentir amor? Certamente não saberia do que falava, ou saberia?
- Sabes querida, acho que o Amor não se escolhe, não se evita. Simplesmente acontece. Mas conta-me porque não gostas tu do Amor?
- O Amor é mau faz a minha mãe chorar, andar triste, já nem me dá miminhos nem nada.
- Que aconteceu ao Amor da tua mãe? - perguntou a senhora com cuidado para não magoar a menina
- Deixou-nos. O meu pai foi embora, deixou-nos a mim e à minha mãe. Disse que amava outra senhora, com quem ia ter outra menina. De um momento para o outro o seu amor por mim e pela mamã passou. E agora estamos sózinhas as duas. Mas a mãe chora. Eu não choro, sou corajosa. Por isso digo que o amor é mau, faz sofrer as pessoas.
A senhora ficou em silêncio. Realmente que dizer a uma menina daquela tentra idade que já não acreditava no amor? Procurou as mãos da menina, puxou-a para mais perto de si e sussurou-lhe ao ouvido.
- Nunca poderás afastar o amor da tua vida. Há muitas formas de amar, e o amor é tão mas tão imenso que o podes sentir por qualquer pessoa, por qualquer animal, por qualquer coisa nesta vida. Escuta as palavras desta velha senhora que amou muito nesta vida. Amei homens, amei mulheres, amei crianças, amei velhos, amei novos, amei filhos, amei netos e muitos mais exemplos te poderia dar de amor que vai muito além do amor entre um homem e uma mulher. Sim quando se pensa em amor, pensa-se logo nas relações homens e mulheres. Mas e as outras formas de amor? Por exemplo, dizes que não queres mais o amor na tua vida, e o amor pela tua mãe, vais abdicar dele?
A menina olhou a senhora. Não esperava esta resposta. Realmente e o amor que sentia pela mãe. Era uma forma de amor não era?
- Não. - respondeu
- Vês, é isso que eu quero dizer. A pessoas são acima de tudo seres que sempre amam alguém ou alguma coisa. O amor é imenso, tem muitas ramificações. Pode deixar-nos nas nuvens, como nos pode deixar no chão. É assim mesmo. Mas o que o torna especial, o que o torna aliciante, e digno de ser vivido é mesmo esta incógnita que ele é. Mesmo que sintas Amor por uma pessoa, que não te ama de volta, esse amor simplesmente não desaparece porque a pessoa não te ama igualmente. Amarás essa pessoa enquanto o sentires dentro de ti. Quer tenhas essa pessoa ao lado ou não. É isso que acontece á tua mãe, ela está agora a curar-se da ausência que sente, mas nunca é mau sentir amor, minha querida. Mais vale amar e perder, do que não ser capaz de amar. Vou-te ler uma passagem deste livro, que é um dos livros que mais gostei de ler na minha vida, e olha que eu já li muito.
E a senhora começou a leitura:
"Era uma vez um rapaz que amava uma rapariga, e o riso dela era uma pergunta que ele queria passar a sua vida toda respondendo. Quanto tinham dez anos ele pediu-a em casamento. Quanto tinham onze anos ele beijou-a pela primeira vez. Quanto tinham treze anos zangaram-se e passaram três semanas sem se falar. Quando tinham quinze anos ela mostrou -lhe a cicatriz que tinha no seu peito esquerdo. O amor deles era um segredo que não contavam a ninguém. Ele prometeu-lhe que nunca amaria mais nenhuma rapariga enquanto vivesse. E se eu morrer? ela perguntou-lhe. Mesmo assim, ele respondeu. No seu décimo sexto aniversário ele ofereceu-lhe um dicionário de inglês e juntos aprendiam as palavras. O que é isto? ele perguntava-lhe, enquanto o seu dedo percorria o seu tornozelo, e ela ia procurar a palavra. E isto? ele perguntava, enquanto beijava o seu cotovelo. Cotovelo? Que palavra é esta? então ele lambia-o, fazendo-lhe cóecegas. E isto? ele perguntava, tocando a pele delicada por detrás da sua orelha. Eu não sei, ela disse, desligando a lanterna, deitando-se de costas com um suspiro. Quando tinham dezassete anos fizeram amor pela primeira vez, numa cama de palha numa cabana. Mais tarde - quando as coisas aconteceram que eles nunca haviam imaginado - ela escreveu-lhe uma carta que dizia: "Quando vais aprender que não há uma palavra para tudo?"
A velha senhora parou a leitura. A menina ficou em silêncio.
- Então isso quer dizer que o amor é muito mais que uma palavra, que provoca sensações que não há palavras para descrever, que pode proporcionar felicidade e ao mesmo tempo tristeza?
- È isso mesmo querida.
- E os seus amores?
- Os meus amores já partiram, resto apenas eu, e os meus livros. Mas enquanto me fôr permitido ler o que as outras pessoas escreveram sobre o amor, serei feliz.
- Empresta-me o livro? - perguntou esperançosa.
- Só se me prometeres que não deixarás o amor á porta, que o vais deixar entrar. Mesmo que cause dor, deixa-o entrar.
- Prometo.
E com a promessa selada ficaram ali por mais alguns minutos até que a menina disse que estava atrasada para a escola. Saiu de lá a correr com o livro na mão. A velha senhora ficou a olhar o vazio por mais uns minutos, entrou dentro de casa fechando a porta. Subiu as escadas dirigindo-se ao quarto. Sentou-se na beira da cama, acariciou um rosto que ali repousava. Um rosto já muito mal tratado pela idade, que não a reconhecia já. Mas um rosto que ela amava com todo o seu ser. E equanto houvesse um sopro dentro daquele corpo ela encontraria sentido para o seu coração continuar a bater também.

Autoria: Lcarmo (Bela)
Citação do livro "A história do Amor", Nicole Krauss

Recomendo vivamente a leitura acima mencionada a todos os que gostam de uma linda história de Amor.

10 comments:

johnny said...

Um conto muito bom.

Poetic GIRL said...

johnny: Obrigada! beijinhos

Eva Gonçalves said...

É verdade que nem sempre há palavras para descrever certas sensações... e para que são precisas ? :) Bejo

Lala said...

Fantástico. Bela!! Formas de amar não faltam aos seres humanos... desde que se mantenham de coração aberto!
Muito bom mesmo!

Beijinho**

Libelinha☆ said...

Adorei e amarei sempre!...

Beijinhos ;P

Poetic GIRL said...

Eva: Ás vezes não precisamos mesmo de palavras para nada... bjs

Lala: Obrigada. O que interessa é ter o coração aberto mesmo... bjs


Libelinha: Eu também quero amar sempre... bjs

Brown Eyes said...

Uma vida sem amor não tem sentido. O amor é o que nos leva a ver a vida com cor mesmo com os diaabores que ele possa provocar vale a pena, sempre, senti-lo. Beijinhos

Helga said...

Bonita história, Bela. Há realmente muitas formas de amor, tantas que muitas delas nem nos apercebemos que as sentimos. Podemos amar qualquer coisa, mas temos tendência a materializar o nosso amor apenas nas coisas óbvias. Geralmente são essas as que mais nos magoam.

Beijinhos :)

Poetic GIRL said...

Brown Eyes: Claro que vale sempre a pena senti-lo. Tenho pena de quem não o possa sentir... bjs

Helga: Obrigada. Amámos por vezes as coisas mais insignificantes e nem nos damos conta não é? bjs

Pochinha said...

Esse livro é de facto fantástico. E o conto também está muito bonito... bj