Thursday, March 25, 2010

Depois do Amor


"Ele interessou-se por ela. Ela que no inicio se sentia indiferente à sua presença, deixou as defesas baixarem, os muros ficarem mais pequenos, as frinchas entreabertas. Ele aproveitando-se entrou de rompante virando tudo de pernas para o ar. Num momento ela sentia-se segura das suas convicções no outro sentia-se frágil, tal qual passarinho nas mãos dele. Ora ele apertava a mão e ela sentia-se presa, ora ele libertava a mão e ela sentia-se desprotegida. De um momento para o outro o interesse dele desvaneceu-se no ar. Ela ali ficou, nua, exposta, seus sentimentos rasgados do peito, aquele frio que sentia era uma infíma parte do que realmente sentia. A mão estendida já lá não estava, não restava nada da ilusão anterior. Ela sofria em silêncio, colava seu coração com fita cola, a cada movimento a fita desprendia-se causando-lhe ainda mais sofrimento. Lambia as feridas então, tal qual um animal ferido faz. Dizem que a nossa própria saliva tem poderes curativos, esperava que pudesse sarar aquelas feridas que ainda sangravam à mínima lembrança dele. Ele partira entretanto com destino a um outro coração, a um outro abraço a uma outra boca que o recebia. Sempre iludido pela beleza física, cego pelo que pensava que desejava nem se dava conta do que as suas atitudes haviam feito. No lugar onde havia atenção, agora havia indiferença, no lugar onde havia presença, agora havia falta. Era pessoa de extremos tanto estava como não estava, cego não via que as suas atitudes tinham ferido de morte alguém mais fraco. Entretanto ela, consciente das artimanhas que ele tecia para fugir da sua presença, tratava das suas feridas. Lembrava as palavras que lhe tinham sido ditas, os gestos, oh como se lembrava dos gestos. O ser humano consegue ser dissimulado, consegue tecer teias muito mais elaboradas que as próprias aranhas, depois quando se vê envolvido nas teias que ele mesmo criou, quer a todo custo rasgar a teia, fugir, tal o tamanho da covardia. Ela iria deixá-lo ir. Se eram outros braços, outros beijos que o esperavam, ela iria deixá-lo ir, certa de que um dia, um dia a lembrança dela iria invadir o seu consciente, então aí ele iria se dar conta da felicidade que havia jogado fora. Porque a vida encarrega-se de ensinar os que pensam que sabem tudo, que são detentores da razão, que podem manipular sentimentos tal qual se manipula marionetas numa peça para crianças. Os sentimentos esses não podem ser apagados, mas podem ser fingidos, manipulados e quando isso acontece o coração rasga-se por dentro, sangra. Mas como todas as feridas é passível de ser sarado. Com paciência e coragem. Porque nenhuma ferida dura para sempre. E como já alguém uma vez disse, ninguém morre de amor, pode é morrer pela ausência dele. "

Autoria: Lcarmo (Bela)

4 comments:

Brown Eyes said...

"Porque nenhuma ferida dura para sempre. E como já alguém uma vez disse, ninguém morre de amor, pode é morrer pela ausência dele. "
Será? Depende se a pessoa a quem dedicávamos esse amor o mereceu e como foi a partida desse amor.
Mais um magnifico momento. Beijinhos

Lou a esquizoffrenica said...

interessante a tua história, triste mas ao mesmo tempo com esperança.

Natália Augusto said...

Há homens assim. Fazem tudo para conquistar uma mulher, mas depois de uns tempos de paixão, afastam-se. Perseguem sempre pessoas frágeis e ingénuas que sonham com o amor da sua vida. Depois da separação fica um coração dilacerado pela dor até que o tempo o cure.

Bom fim-de-semana

Poetic GIRL said...

Brown Eyes: De vez em quando gosto de escrever estes contos soltos, baseados em pessoas reais, coisas que vou observando... bjs

Lou: Sim é triste, um amor não correspondido é sempre triste. bjs


Natália: Eu gostava de saber porque eles fazem isso, criam um mundo de ilusões, depois puxam-nos o tapete. Gostava de entender o que lucram com isso. beijocas