Thursday, July 15, 2010

Momento: a duas vozes (parte XXV)

ELE

Um súbito telefonema de Ana deixou-me angustiado. A sua saúde já fragilizada com a perda da filha começava a piorar. A doença que julgáramos vencida estava agora em vias de voltar a atormentar-nos. Logo que me foi possível arranquei para casa dela. Sofia estava comigo. Incrível a capacidade que as crianças têm de se abstrair do que as rodeia, era como se a minha filha vivesse num mundo apenas dela, inconsciente do que se passava à sua volta. De certa forma era um alívio para mim. Se fosse porventura mais velha, faria com certeza mais perguntas, não entenderia porque a avó não queria brincar com ela, porque os seus olhos estavam negros e sem vida.
Sentei-me no sofá ao seu lado. No espaço de uma semana a mulher que eu sempre conhecera como forte, parecia um trapo velho amarrotado. Segurei-lhe a mão com carinho. Sofia no meu colo tentava a todo custo saltar para o colo da avó, repreendia. Fez beicinho como só ela sabia fazer.
- Deixa-a estar, anda à avó querida... - deixei-a deitar-se ao seu lado. Encostou a cabeça em seu peito, seus dedinhos desalinhando o cabelo da avó. Senti um ligeiro aperto no peito por presenciar aquela cena. Dei comigo a pensar que seria injusto para a minha filha mais alguém lhe ser roubado. Era uma probabilidade. Ana sabia que se eventualmente a doença reaparecesse não teria condição física de a combater, escapara à uma década atrás e dizia ser uma grande felizarda por isso. Na sua curta vida  Sofia já sofrera a perda da mãe, de Marylin e agora da avó. Eram demasiadas perdas.
- Como se sente hoje? - perguntei-lhe
- Cansada... apenas cansada. Sabes Helder eu sempre estive à espera deste momento, nunca me convenci que iria sair completamente vencedora. Agora percebo que a doença entrou em remissão sim, mas porque eu tinha ainda algo a cumprir aqui na terra antes de partir. Eu tinha que estar ao lado dos últimos dias da minha filha, ver os primeiros passos da minha neta. Agora que a minha filha já partiu, a minha neta já não precisa tanto de mim, a minha doença resolveu reaparecer. Como se tivesse cumprido a minha meta aqui na terra.
- Ana, não diga uma coisa dessas. Vamos lutar, vamos fazer o que for possível para a ajudar. A medicina hoje em dia..
- Ah Helder eu não sei se tenho forças para lutar. Tu ainda não estavas na nossa vida quando passei a primeira vez por isto, não sabes o que dói veres o teu marido, filha a sofrer por te ver sofrer. Não sei se quero viver isso outra vez, não sei se quero.
- Mas tem o seu marido, neta, eles precisam de si... - argumentei eu - eu preciso de si!
- Meu querido tudo nesta vida passa, dói, mas a vida continua. E vocês poderão continuar com a vossa vida mesmo depois de eu partir.Chama-se lei da vida, por mais injusta que possa parecer.
Olhei-a nos olhos. Falava com convicção, mais emocional que racional. Olhei a minha menina que entretanto adormecera nos braços da avó. Estaria a vida a brincar comigo, um constante dá e tira? Um barulho chamou a minha atenção, Pedro chamava-me da entrada da porta. Levantei-me, deixei-as sós.
Estava com um olhar triste, ausente, seu cabelo em desalinho, expressão ausente, de quem não pregava olho desde que soubera a noticia. Sentamos no alpendre cá fora alheios à beleza que nos rodeava. O sol desaparecia por detrás da montanha, pincelando o céu de cores lindas. Em silêncio partilhámos aqueles momentos em que apenas o som da natureza ecoava em nós.
- Duro golpe hem? - iniciou ele a conversa
- Sim, não estávamos mesmo à espera. Que disse o médico em concreto? - perguntei-lhe
- Oh disse aquilo que não queríamos ouvir, que andámos a ignorar. Que reapareceu o tumor, que seria difícil de operar novamente. Aquelas conversas de médico quando sabe que não à mais nada a fazer. Ana recusa qualquer tipo de tratamento que acelere a sua partida ou diminua a sua qualidade de vida. Um amigo médico falou-me numa clínica em Londres onde costumam operar casos destes com êxito. Estou disposto a desfazer-me de tudo, desta casa, do que for necessário para tentar, mas ela não quer.
- Vai ver que ela vai acabar por ceder, vai ver que sim.
- Espero bem que sim Helder, não queria perder a minha mulher desta forma, não para este monstro que já a tentou levar uma vez....
Dei-lhe uma palmada no ombro em jeito de alento, em jeito de coragem. Olhámos ambos para o firmamento incertos do que nos esperava a seguir.

Autoria: Lcarmo (Bela)
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Friday, July 9, 2010

Nas minhas mãos


"Peguei nele com cuidado. Maltratado e ferido, tal era o estado em que se encontrava. Com cuidado para não o magoar, desinfectei-lhe as feridas. Algumas eram feias e profundas. Havia algumas bem antigas, outras notavam-se ser recentes. Preocupou-me as mais recentes, pois ainda estavam frescas, ainda se notava que estavam expostas. Eram as que lhe doíam mais. Peguei nele nas minhas mãos, amparei-o. Falei com ele, expliquei-lhe que era inevitável as dores que sentia, que iria minimizar a sua dor o melhor possível. Parecia pequeno e frágil por fora. Mas por dentro eu sabia-o ser grande e forte. Apesar da facilidade com que abria feridas, não tinha noção por vezes da sua capacidade de se regenerar. Seus batimentos eram pausados, quase inaudíveis. Parei para escutar. Acaricei-o com gestos delicados, a sua fragilidade, a sua mágoa ali latente. Tentava ocultar a sua dor,  apesar da aparente jovialidade, se os outros olhassem bem para o fundo do seu ser veriam a mágoa que o consumia, que o desgastava. Fiquei ali com ele nas minhas mãos. Ainda o tenho nas minhas mãos, o meu Coração " Bela

Thursday, July 1, 2010

Uma noite...

Era uma noite escura. A rua encontrava-se silenciosa. Toda a gente já se recolhera nas suas casas. João caminhava sem rumo, aconchegou mais o casaco junto a si, sentia frio. Olhou em volta, procurando um lugar que lhe servisse de abrigo. O vento soprava forte fazendo-o aconchegar ainda mais o casaco  já velho e roto. De um eco ponto retirou um pedaço de cartão suficiente para lhe servir de colchão. Uma saliência no beco pareceu-lhe ser o local mais abrigado para poder dormir umas horas; horas suficientes até ao novo raiar do dia, até mais um dia na sua vida. A vergonha obrigava-o a viver assim na penumbra, escondendo-se dos outros. Deitava-se quando os outros já dormiam, levantava-se antes dos outros acordar. Assim ia "sobrevivendo", garantindo a sua subsistência com a mísera pensão de invalidez que recebia. Aconchegou-se em posição fetal adormeceu . A noite estava demasiado silenciosa como que antecipando um qualquer acontecimento fatídico.

O silêncio da noite foi quebrado pelo som de um disparo seguido de um grito estridente. Acordou sobressaltado tocando em todo o seu corpo com receio de ser sido alvo desse mesmo disparo. Não. Estava tudo bem consigo. Levantou-se. Os vizinhos começaram a assomar às janelas. Os gritos iam-se tornando cada vez mais próximos. Enchendo-se de coragem avançou tacteando no escuro. O seu coração batia descompassadamente. Os barulhos vinham do outro lado do prédio. Contornou a esquina camuflando-se na escuridão que envolvia o prédio. Espreitou.

O cenário era: um carro com as portas completamente abertas, uma jovem em lágrimas encolhida à mercê de um individuo na posse de uma arma de fogo. O individuo ameaçava-a, gritando. João olhou à sua volta, esperando que algum dos vizinhos que espreitavam por detrás das cortinas fizesse algo. A passividade de quem estava protegido no calor do lar tornava-os imunes ao que se passava na rua . Espectadores passivos da desgraça alheia. Olhou ao seu redor procurando algo que lhe pudesse servir de arma. Uma tábua de madeira largada no chão pareceu-lhe servir o seu propósito. Avançou por detrás do agressor. A jovem viu-o aproximar-se, seus olhares se cruzaram, ele silenciou-a com o olhar, evitando que ela denunciasse a sua presença. Pé ante pé avançou até estar próximo do homem que continuava a gritar com a jovem, ela cada vez se encolhia mais arrastando-se pelo chão. O cenário era horrível. O homem balbuciava palavras sem nexo, acusando-a de alguma coisa que João não entendia. Deviam viajar juntos no carro quando por qualquer motivo algo despoletou a fúria no homem. Uma relação passional? Mas ele parecia tão mais velho que ela.

Um gato atravessou o local a correr assustando os invervenientes na história. João deu um salto, largando a tábua que caiu ao chão causando um som estridente. O agressor voltou-se, ambos se olharam. Um arrepio percorreu João. A arma disparou atingindo-o no ombro. Caiu para o chão dando um grito de dor que ecoou na noite.
- "Que fizeste tu?" - gritou a rapariga correndo em auxilio de João
- "A culpa é tua, toda tua!" - gritava o marmanjo enquanto andava em círculos
- "Que vamos fazer agora? Precisamos de chamar uma ambulância! Liga para a emergência!"
- "Eu? Eu é que vou ligar? Eu vou é embora daqui!" - atirando a arma para um canto, entrou no carro e fugiu.
João e a jovem ficaram sozinhos. Ela chorava. Ele sentia guinadas de dores alucinantes.
- "Que vamos fazer? Oh que vou fazer?" - balbuciava ela enquanto olhava em volta
- "Vai ter que chamar alguém, por favor não me deixe aqui". - pediu ele.
Ela levantou-se, correndo para o prédio mais próximo tocando em todas as campainhas. Ninguém respondia. Insistiu mais uma vez. Ouviu-se uma voz pelo intercomunicador a perguntar o que queria.
- "Por favor, chame uma ambulância, é urgente, está uma vida em risco!".
- "Vou chamar, não saia daí que vou chamar".
A jovem foi para o lado de João. Ambos ficaram lado a lado até a ambulância chegar. Os paramédicos prestaram os primeiros socorros, precisava de seguir para um hospital. Colocaram-no dentro da ambulância, a jovem seguindo-os.
- "Posso ir consigo?" - perguntou ao João - "Não tenho para onde ir."
João aquiesceu. Em silêncio foram conduzidos pela cidade, a sirene da ambulância ecoando na noite. 

Autoria: Lcarmo (Bela)
Desafio Fábrica de Letras
Tema: DISPAROU


Friday, June 25, 2010

Momento: a duas vozes (parte XXIV)

ELA

O trabalho acabou por me absorver por completo. Nele canalizei todas as minhas forças, todo o meu ser. Os meus dias de trabalho eram longos, bem longos, por mais de doze horas exercia a função que me tinha sido destinada. Miguel trabalhava tão ou mais que eu. Havia dias que nem nos cruzávamos em casa, trocando meras palavras durante o dia. Ambos tínhamos a nosso cargo uma grande responsabilidade, eu sentia-me ainda mais obrigada a sair vencedora para não frustrar as expectativas que tinham sobre mim.
Aproveitávamos o fim de semana para conhecer a cidade, passear, jantar fora. Ele acabou se revelando uma boa companhia. A sua presença não tinha qualquer efeito em mim, olhava para ele e não o via como homem, era um bom amigo acima de tudo, meu superior hierárquico por outro lado.
Continuava a pensar em Helder, a respirar Helder. Não mais tivera noticias dele. Pensava muitas vezes onde estaria, que estaria a fazer, se pensaria em mim. Estranhava o silêncio. Mas a verdade é que não conseguia reunir coragem suficiente para pegar no telefone, havia sempre alguma coisa que me impelia a não fazê-lo. A angústia essa andava sempre latente dentro de mim, uma sensação de asfixia, de viver sem estar vivendo. Por vezes se não fosse a insistência de Miguel haveria com certeza muitos fins de semana que nem sairia do quarto. Deixava-me levar pela sua alegria, jovialidade. A verdade é que eu precisava dele para me distrair, para me esquecer do que havia deixado para trás. Tenho consciência que o estava a usar, para preencher um vazio, para me distrair da minha dor. Simplesmente não o conseguia evitar, era mais forte que eu.
Sempre fui uma pessoa que tem necessidade de estar acompanhada, a solidão faz-me mal, a sensação que o meu tempo é desperdiçado aterroriza-me. Os únicos momentos em que concebia e concebo estar só é quando estou concentrada numa leitura, caso contrário tenho que ter gente por perto. Este medo da solidão vem de desde muito nova. Apesar de ser filha única, cresci rodeada de gente. Cresci na quinta do meu avô, meus pais viajavam constantemente, deixando-me por tempos indeterminados ao cargo dos avós. Meu avô era um criador de cavalos, pessoa generosa, amiga dos animais e das gentes. Com ele aprendi os valores essenciais para crescer consciente dos meus actos, com ele aprendi a amar os animais, com ele aprendi o que era o Amor. Sendo neta primogénita era a preferida dele, a que ele escolhia para sentar no seu colo quando me contava histórias dos seus tempos de adolescente. Era a única que nutria o mesmo amor pela natureza, a única que o acompanhava nas lides. Tenho memórias de mim, meio palmo de gente, calçada com botas de montar demasiado grandes para mim, carregando os baldes com a ração dos animais. Que doces memórias essas.
Meu avô não gostava do meu Pai. O meu Pai não tolerava o meu avô. E a minha mãe, a minha mãe não era capaz de tomar um partido. Dividia-se entre os dois, evitando ao máximo que eles passassem mais do que o tempo necessário juntos. Daí as constantes viagens sem mim. E eu cresci a amar mais o meu avô do que o meu próprio pai. A sua presença aterrorizava-me, meu semblante sempre ficava mais carregado na sua presença. Conforme fui crescendo, o tempo que passava em companhia do meu avô era superior ao tempo que passava com meu pai. A quinta localizava-se no Norte Transmontano, longe da cidade onde sempre vivemos. Como os meus pais me começaram a deixar ficar por tempos inderteminados, meu avô obrigou a minha mãe a inscrever-me lá na escola. E foi ali que passei a minha infância, naquela terra maravilhosa, rodeada de montes e vales. Com a morte do meu avô, veio a obrigatoriedade de regressar à cidade. Tinha eu 12 anos, idade em que já era difícil me conseguirem voltar a moldar, foi aí que começaram os problemas com o meu Pai. Ele não entendia porque eu não lhe obedecia, eu gritava que o destestava, que queria fugir de casa. As alturas em que ele estava em casa, eram terríveis para mim. Não havia forma de entendimento entre nós. Viver naquela casa era um inferno. Os melhores momentos eram os passados sozinha com a minha mãe, em que nos agarrávamos as duas sozinhas a chorar, ela com medo de tomar uma atitude, eu de saber que estavamos ambas condenadas a viver num inferno. Felizmente a profissão do meu Pai obrigava-o a passar vários meses fora de casa, servindo isso como meio de aproximação entre mim e a minha mãe. Aos poucos fomos construindo uma amizade que nos tinha sido roubada, soube por ela que sofria todos os dias com a nossa separação. Questionei-a porque me deixou aos cuidados do meu avô. E ela respondeu-me da forma mais sincera possível que não queria que eu vivesse num inferno. Nunca consegui entender porque ela não deixou o meu Pai mais cedo. O que a levou a aguentar anos e anos de maus tratos. Nem me cabe agora julgá-la. Não estaria ela agora a sofrer as consequências de tudo o que "engoliu" durante anos e anos? O nosso terror apenas terminou quando o meu Pai reconstruiu outra família, deixando-nos entregues a nós mesmas. Retirando-nos o pouco que tínhamos. De um dia para o outro vimo-nos ambas no meio da rua, sem lugar para viver. Agora já não havia avô para onde fugir. Agora já não havia quinta no Nordeste Transmonstano. Agora já não havia família mais nenhuma, separados pela inveja, pelas partilhas que sempre acabam separando as pessoas, terrível ganância que transformas as gentes.
Uma vizinha acolheu-nos por alguns dias. Conseguimos arranjar uma instituição que nos acolheu e onde passamos a viver as duas. Eu cresci dentro daquelas paredes, ajudando a minha mãe nas tarefas que lhe era destinadas em troca de comida. Foram tempo difíceis, mas felizes! Até a doença da minha mãe começar a dar os seus primeiros sinais, no inicio parecendo que era apenas uma simples tristeza, desmotivação, mas que se veio a revelar nunca mais passar. Foi assim que começaram os tratamentos, internamentos, até chegar à situação actual. Eu agarrando-me às forças que tinha, fui fazer a única coisa que podia fazer, trabalhar, estudar. Foram anos e anos de sacrifício, de luta, para chegar onde estava hoje.

Da janela deste quarto ao olhar para a rua movimentada lá em baixo, senti o coração apertado de saudades da minha Mãe.

Autoria: Lcarmo (Bela)
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P.S. Não se esqueçam do desafio que lancei neste post
TEMA: Poesia
Prazo das participações: Todo o mês de Junho
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Resultados serão anunciados a 17 de Julho

Thursday, June 17, 2010

Continuar a história...

"Ela levanta-se, estranhando a sua própria audácia. Senta-se ao seu lado, sua mão pousa delicademente na dele. Ele pára de tocar, olham-se. Com gentileza ele coloca a sua mão por cima da dela, condu-la, convida-a a ela própria acariciar as teclas do piano. O calor que emana da mão dele na sua fá-la estremer. Sente-se ruborescer ligeiramente, tal a intensidade dos olhos dele no seu rosto, na sua pele, queimando-a, deixando-a a tremer. Num impulso, com a mão livre acaricia o seu rosto, ele inclina ligeiramente o rosto em sinal de concordância, sentiu a barba dele sob os seus dedos, teceu o contorno dos lábios. Ele esboça um sorriso. Ela apenas o contempla. O som do piano continua a ecoar na sala, em uníssono com o bater dos dois corações, num compasso idílico...."

Continuação da história do Blog da Patti, Ares da Minha Graça
Autoria: Lcarmo (Bela)

P.S. Não se esqueçam do desafio que lancei neste post , continuo à espera das vossas participações!
TEMA: Poesia
Prazo das participações: Todo o mês de Junho
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Monday, June 14, 2010

Podia ser o começo de uma história

"Naquele estado permanente de insónia, senta-se no parapeito e fica à escuta. A sua mente vagueia sem destino, inevitavelmente recaíndo sempre no autor daqueles sons dispersos na noite. Quem seria? Como seria? Seriam seus dedos longos? Estremeceu ao imaginar as mãos que tocariam neste momento as teclas do piano, acariciando-as, fazendo-as gemer ao passar do seu toque. Só poderia estar louca em imaginar cenários "sensuais" com alguém que nunca vira. O silêncio da noite constrastava com os acordes que ouvia. Havia algo de sedutor na forma como a música invadia seus ouvidos. Ficavam assim horas, ele a tocar, ela a escutar. E quanto finalmente ele dava por terminado a sessão musical, ela continuava sentada na sua janela, a música ainda ecoando em seus ouvidos..."

Autoria: Lcarmo (Bela)


Continuação da história do Blog da Patti, Ares da Minha Graça

Tuesday, June 1, 2010

Estava Vazio....


"Ao colocar a chave na porta estremeceu ligeiramente. Entreabriu-a , ficou a olhar o corredor escuro. Estava relutante em acender a luz, tacteou no escuro com receio de tropeçar em alguma coisa. Sentia-se apreensiva, o receio que lhe ocupara a mente o dia todo parecera ter-se realizado. Caminhou em direcção ao quarto, procurou o interruptor, ligando a luz ficou a contemplar o quarto. A cama ainda se encontrava por fazer, as almofadas jogadas no chão. Esperava encontrá-lo à espera dela, mas ele não estava.
A discussão de ontem ainda lhe latejava nos ouvidos, a cena ainda decorria perante o seu olhar. Ela a chorar, ele a agarrá-la pelos ombros abanando-a, querendo à força que ela parasse o choro. Mas ela não conseguira, ele atirara-a para a cama, dissera-lhe coisas horríveis. E mais uma vez ela ouvira e calara. Despiu o casaco, descalçou os sapatos e deitou-se na cama em posição fetal. Sentiu o cheiro da mistura do seu perfume e o suor de ambos impregnado nos lençóis. Escondeu a cara na almofada para absorver o cheiro uma vez mais. Deixou-se estar ali à espera de ouvir a chave na porta. Já eram horas de ele estar em casa. Teria acontecido alguma coisa? A apreensão tomou conta de si, num impulso procurou o telefone para lhe perguntar onde estava. Tocou, tocou, tocou e ele não atendeu. Seu olhar percorreu os objectos espalhados pelas mesas do quarto, pelo chão. Algo chamou a sua atenção. Levantou-se em direcção à cómoda. Estranhou a falta de alguns objectos. Tinha a certeza que a cómoda tinha mais objectos, ela no seu modo de ser cuidado, certeiro arranjara os objectos pessoais de cada um de forma a que não se misturassem. Neste momento alinhados em cima do tampo da cómoda apenas se encontravam os seus. Um grito abafado a percorreu. Correu para o guarda-fatos abrindo-o de par em par.
Seu olhar constatou o seu pior receio, as roupas dele não mais se encontravam ali. Espreitou debaixo da cama procurando a mala que lhe oferecera, também ela já não estava mais onde era suposto estar. Sentou-se na cama sem forças para reagir, ficou a olhar o guarda - fatos que estava vazio dos objectos dele. Nada ficara. Seu coração pesou-lhe dentro do peito. Também seu coração se esvaziara. Agora para além de um guarda-fatos vazio, ela estava vazia do amor dele. Covardemente ele saíra da vida dela, sem uma despedida, sem uma palavra de conforto. Ela nunca lhe pediria para ficar. Nunca. A relação chegara ao ponto do não retorno, ela sabia, ela sentira na sua pele na última vez que fizeram amor. O elo quebrara-se, o companheirismo cedera lugar às discussões, às acusações mudas, aos carinhos que não mais trocavam.
Seu coração estava agora mais leve, vazio,mas leve. Enxugando as lágrimas levantou-se, olhou uma vez mais o guarda-fatos vazio. Procurou debaixo da cama a sua mala onde guardara alguma roupa sua para arranjar lugar para a roupa dele. Abriu-a. Em questão de minutos voltou a encher o guarda-fatos mas desta vez apenas com a sua roupa. "Se fosse tão fácil voltar a encher o meu coração como voltei a encher este guarda-fatos" pensou. E sentiu um calor a aflorar-lhe a pele, um sorriso tímido brindou-a. Sim seria capaz de o fazer. E estando disposta a isso, sentiu seu coração se encher de esperança.
Não ia ser fácil, mas entre um guarda-fatos vazio ou um coração vazio, ela preferia ter o guarda-fatos e a cama vazia. "


Autoria: Lcarmo (Bela)
Desafio Fábrica de Letras
Tema: Estava vazio

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