"As pessoas diziam que ela era transparente. Não aquela transparência que nos remete para o invisível, mas aquela transparência que nos coloca a alma a nu. Julgavam conhecer o seu interior, a matéria de que era feita e ela apenas sorria. Oh que ingénuos todos eram. Não se apercebiam que debaixo daquela capa de uma transparência fina e ténue se escondia mais, muito mais. Segredos nunca revelados, desejos enraizados na alma, pudores nunca confessados. Se ela era transparente, os outros eram cegos, ou não quereriam ver que por debaixo daquele sorriso franco e espontâneo se escondia alguém dorido, magoado, fechado. Era tão fácil esconder as mágoas por detrás dos seus olhos grandes e castanhos, do seu sorriso rasgado, da sua alegria contagiante. Sentia-se um actriz num palco, recebendo os aplausos, os afagos que lhe dedicavam. Mas lá no silêncio da sua vida, quando despia a capa que adoptara, era só ela. Sózinha no seu mundo. Então aí sim era completamente transparente, já não tinha à sua frente o palco onde fingia ser uma pessoa que na realidade não era. Era transparente diziam eles, e não podiam estar mais enganados. Apenas mostramos aquilo que queremos verdadeiramente mostrar, e os outros eram tão fáceis de enganar..."
Wednesday, November 3, 2010
Friday, October 1, 2010
E chove...
"Pequenas gotas caíam do céu. Ao início aleatoriamente, apenas ameaçando, intensificando-se depois. Maria sentada no alpendre lia um livro. Os finais da tarde em que o sol se começava a esconder por entre as nuvens eram os seus momentos preferidos. Olhou o céu outrora azul e solarengo, agora escuro e ameaçador. A chuva caía molhando o chão. O cheiro a chuva invadiu os seus sentidos. Observou os trausentes que corriam para se abrigar da chuva inesperada. Sentiu-se feliz por se encontrar em casa, no aconchego do seu lar. Havia algo de pitoresco na paisagem que via do seu alpendre, a produção visual, juntamente com o cheiro característico das primeiras chuvas deixaram-na extasiada. Descalçou-se, em pontas de pé caminhou para o meio da rua. Deixou que a chuva lhe caísse pelos cabelos, rosto... Em poucos segundos molhou-se por completo. Sorriu olhando o céu. Que diriam os vizinhos?
Recolheu-se em casa.Enxaguou o cabelo, despiu a roupa encharcada. Da janela continuou observando a chuva a cair lá fora, formando poças de água onde a terra se encontrava menos firme. Olhou o relógio da bisavó que repousava na lareira da sala. Ainda faltava bastante para o regresso do seu pai. Sentiu-se insegura. Um calafrio percorreu a sua espinha. Não era medo, desde bem pequena que desenvolvera as suas capacidades de independência, ficava sozinha em casa na ausência dos seus pais. Mesmo depois daquela fatídica noite não tinha medo de ficar só. Ela nunca se sentia só. Os seus amigos, os livros faziam-lhe companhia, riam com ela, choravam com ela. Com um livro na mão ela nunca se sentia só.
Mas hoje, hoje, com esta chuva inesperada sentiu a solidão a aproximar-se. Encolheu-se mais no sofá junto da janela. De livro no regaço tentava vislumbrar o carro do Pai a aproximar-se de casa. Um trovão ouviu-se por cima da casa. Assustou-se. A escuridão envolveu-a. Acabara de falhar a luz. "Fantástico!" - pensou - " Era só o que me faltava". Aninhou-se mais no sofá. Agora nem ler podia. Ouvia o a da tic-tac do velho relógio ecoando no silêncio que a rodeava. E se ligasse ao pai? Levantou-se dirigindo-se ao telefone. Mudo. Simplesmente mudo. "Oh e agora?" - e se fosse à vizinha? Olhou novamente lá para fora, chovia ainda mais.
Era noite de lua cheia, uma lua grande, redonda que projectava formas que a faziam imaginar histórias. Aninhou-se no sofá, cobertor no regaço. Com os olhos pousados na lua, teceu imagens, teceu sonhos, ela era feita da matéria dos sonhos. Seu Pai ria-se das histórias que lhe contava, seu Pai deliciava-se de a ouvir contar as peripécias das suas personagens. Quantas noites aninhados nos braços um do outro, em plenos momentos de partilha entre Pai e Filha, ela sussurrava as suas histórias aos ouvidos atentos dele. Seu Pai era seu porto seguro, sua âncora, o elemento que a tirava do mundo dos sonhos e fazia fincar os pés no chão. Seu Pai era seu mundo, pincelado de cores vivas, alegres, seu Pai era o riso estridente que ecoava pela casa mesmo quando o seu coração gritava de dor. E ela, ela era bem filha do seu Pai.
Olhou o relógio mais uma vez. O tempo passava velozmente. Quanto mais ele avançava, quanto mais os ponteiros dos relógios se moviam, mais a angústia lhe espremia o peito.
Aconchegou-se em posição fetal. Os olhos pesavam-lhe. Lutou para se manter acordada, mas era uma luta inglória. Acabou adormecendo. Não era um sono sossegado, era um sono envolto em sobressalto. Dormir sem estar a dormir. Olhos fechados, corpo pesado, mente inquieta.
O barulho de um carro aproximar-se acordou-a. Por momentos não sabia onde estava, por momentos sentiu-se perdida. Olhou pela janela, era o seu Pai. Suspirou aliviada. "Obrigada meu Deus por o trazeres são e salvo para mim! .
Esperou que ele abrisse o portão da garagem. Sorrateira esquivou-se para o seu quarto. Despiu-se à pressa, enfiou-se debaixo dos lençóis. Esperou quieta como um rato espera atento a movimentos súbitos. Escutou a chave a rodar na fechadura. Sentiu os passos ecoar na casa, ouviu as chaves serem pousadas na entrada. Esperou. Logo logo os passos de seu Pai ecoariam no corredor, apenas parando na entrada do seu quarto.
Sentiu a porta do seu quarto abrir, seu Pai acercar-se da sua cama. Sentiu seus lábios em seu rosto, suas mãos afagando seus cabelos. Estava finalmente em Paz. Em casa, com o seu Pai, o seu mundo estava por fim completo. Escutou mais uma vez a chuva lá fora. O som da chuva no telhado produzia uma melodia agradável, aconchegou-se mais, sendo embalada até finalmente adormecer."
Mas hoje, hoje, com esta chuva inesperada sentiu a solidão a aproximar-se. Encolheu-se mais no sofá junto da janela. De livro no regaço tentava vislumbrar o carro do Pai a aproximar-se de casa. Um trovão ouviu-se por cima da casa. Assustou-se. A escuridão envolveu-a. Acabara de falhar a luz. "Fantástico!" - pensou - " Era só o que me faltava". Aninhou-se mais no sofá. Agora nem ler podia. Ouvia o a da tic-tac do velho relógio ecoando no silêncio que a rodeava. E se ligasse ao pai? Levantou-se dirigindo-se ao telefone. Mudo. Simplesmente mudo. "Oh e agora?" - e se fosse à vizinha? Olhou novamente lá para fora, chovia ainda mais.
Era noite de lua cheia, uma lua grande, redonda que projectava formas que a faziam imaginar histórias. Aninhou-se no sofá, cobertor no regaço. Com os olhos pousados na lua, teceu imagens, teceu sonhos, ela era feita da matéria dos sonhos. Seu Pai ria-se das histórias que lhe contava, seu Pai deliciava-se de a ouvir contar as peripécias das suas personagens. Quantas noites aninhados nos braços um do outro, em plenos momentos de partilha entre Pai e Filha, ela sussurrava as suas histórias aos ouvidos atentos dele. Seu Pai era seu porto seguro, sua âncora, o elemento que a tirava do mundo dos sonhos e fazia fincar os pés no chão. Seu Pai era seu mundo, pincelado de cores vivas, alegres, seu Pai era o riso estridente que ecoava pela casa mesmo quando o seu coração gritava de dor. E ela, ela era bem filha do seu Pai.
Olhou o relógio mais uma vez. O tempo passava velozmente. Quanto mais ele avançava, quanto mais os ponteiros dos relógios se moviam, mais a angústia lhe espremia o peito.
Aconchegou-se em posição fetal. Os olhos pesavam-lhe. Lutou para se manter acordada, mas era uma luta inglória. Acabou adormecendo. Não era um sono sossegado, era um sono envolto em sobressalto. Dormir sem estar a dormir. Olhos fechados, corpo pesado, mente inquieta.
O barulho de um carro aproximar-se acordou-a. Por momentos não sabia onde estava, por momentos sentiu-se perdida. Olhou pela janela, era o seu Pai. Suspirou aliviada. "Obrigada meu Deus por o trazeres são e salvo para mim! .
Esperou que ele abrisse o portão da garagem. Sorrateira esquivou-se para o seu quarto. Despiu-se à pressa, enfiou-se debaixo dos lençóis. Esperou quieta como um rato espera atento a movimentos súbitos. Escutou a chave a rodar na fechadura. Sentiu os passos ecoar na casa, ouviu as chaves serem pousadas na entrada. Esperou. Logo logo os passos de seu Pai ecoariam no corredor, apenas parando na entrada do seu quarto.
Sentiu a porta do seu quarto abrir, seu Pai acercar-se da sua cama. Sentiu seus lábios em seu rosto, suas mãos afagando seus cabelos. Estava finalmente em Paz. Em casa, com o seu Pai, o seu mundo estava por fim completo. Escutou mais uma vez a chuva lá fora. O som da chuva no telhado produzia uma melodia agradável, aconchegou-se mais, sendo embalada até finalmente adormecer."
Friday, August 6, 2010
Tempo do Adeus
Vou de férias, deixo-vos mais um conto para vos deliciar na minha ausência, I will be back soon!
Adeus. Ela disse-lhe adeus. Em pontas dos pés beijou-o uma última vez. Ele olhava-a ternamente, segurou-lhe a mão, desejoso de não a largar mais.
- Não posso crer que vais mais uma vez embora. - seus olhos clementes que ela o ouvisse mais uma vez.
- Sabes que a minha vida é do outro lado do oceano. Já falámos sobre isto tantas vezes, eu não posso simplesmente virar costas.
- Porque não? O que tens a perder? - perguntou ele
- A minha independência, a minha carreira, a minha vida. Porque não vens tu comigo?
- Sabes que não posso, pelos mesmos motivos que tu.
- Então estamos conversados, nenhum de nós está em condição de abdicar, teremos que nos contentar com estes momentos fugazes em que somos tão felizes. Talvez a nossa receita seja esta, termos que estar separados para nos voltarmos a reencontrar. Vivemos de reencontros constantes.
Ele olhou-a, como amava aquela mulher. Seria capaz de viver mais dois meses ou mais separados? Ela acabou de se vestir, calçou os sapatos, deu um jeito no seu cabelo ondulado. Pegou na mala, atirou-lhe mais um beijo e saiu.
As lágrimas escorreram-lhe pelo rosto enquanto descia as escadas a correr. Sinal de fraqueza, quase que cedera ao seu pedido, quase que abandonara tudo para ficar com ele. Quase. Olhou a praia em frente. Ainda tinha algum tempo antes do seu voo. Caminhou descalça pela areia, sapatos numa mão, mala na outra. Sentiu a areia molhada nos seus pés, a brisa marítima despenteava seus cabelos. Sentou-se. Ficou olhando o mar, uma sensação de tranquilidade invadiu-a. Pensou nele. No seu sorriso, no seu olhar, no seu toque, nos seus beijos. Como iria viver sem isso tudo? Cada vez custava mais a separação. Mais dois longos meses sem se verem. Vivendo apenas de telefonemas, mensagens, caricias virtuais que não os satisfaziam. Dois meses eram apenas cerca de 60 dias. Mas porque lhe parecia tanto? Porque lhe parecia um ano? A vida pregara-lhes a rasteira de os colocar frente a frente na pior fase de ambos. Aceitaram correr o risco, mas o risco agora estava a ser demasiado pesado, demasiado custoso. Suspirou.
Não estava praticamente ninguém na praia. Era ainda muito cedo. Um casal idoso, não tinham mais que 70 anos caminhavam pela areia fora de mão dada. Ficou a contemplá-los ao longe. Invadiu-a uma nostalgia, uma certeza que provavelmente não chegaria a esse patamar da vida com ele ao lado. Não a continuar a viver este amor pela metade. Encheu-se de coragem, pegou na mala e nos sapatos...
Entrou sorrateira em casa. Ele dormia. Despiu-se. Aconchegou seu corpo ao dele. Ele acordou sentindo a sua presença.
- Então de volta? - perguntou ensonado
- Ainda me queres? - perguntou enquanto lhe beijava os lábios
- Ainda perguntas? - sorriu-lhe
Abraçaram-se. Sem promessas, sem certezas, sem nada. Apenas ele e ela. E naquele momento só isso lhes bastava. Simplesmente porque às vezes custa demais dizer-se adeus.
Autoria: Lcarmo (Poetic Girl)
Sunday, August 1, 2010
A última Viagem
Mais uma longa viagem. Mais dois dias em viagem da sua vida. Até quando iria viver mais entre as nuvens que com os pés na terra? Dobrou cuidadosamente a roupa enquanto a colocava na mala. Estava cansada dos voos intermináveis, das escalas constantes, do adormecer numa cidade e acordar noutra totalmente diferente. Estava a perder o crescimentos dos seus filhos, estava a perder o envelhecimento do seu marido.
Esta era a sua profissão, a sua carreia, o seu sonho? Mas quanto lhe estava a custar isto tudo? Viver a maior parte dos dias afastada de quem amava? Tinha sido aliciante nos seus tempos de solteira, em que viajar ainda a conseguia surpreender, em que vibrava com a chegada a uma cidade diferente. Agora todas essas emoções se evaporaram, deram lugar à angústia de ter que deixar os seus amores sem certezas do retorno. Já não se sentia segura na profissão, o medo de não ver crescer os seus meninos, não estar ao lado do marido a faziam estar mais consciente ainda dos riscos que corria diariamente. Valeria a pena?
Caminhou descalça até ao quarto das crianças, estas dormiam sossegadas. Beijou-os ternamente, ficando a olhá-los dormir. Dormiam descansados, ignorantes da angústia que toldava o coração da mãe. Uma profissão que lhe permitia dar-lhes tudo o que era material, mas os fazia ficarem privados da única coisa que mais lhes fazia falta: o seu amor. Agradecia o marido compreensivo e dedicado que tinha. Ele era pai, ele era mãe. Havia meses em que ela estava constantemente ausente. Pensou ironicamente que muitas mulheres se queixam da ausência dos maridos, neste caso era ela a ausente. Ainda tinha bem fresco na sua memória o último Natal que ficara retida num aeroporto em New York, sem possibilidades de retorno devido às más condições climatéricas, o que chorara naquela noite. O quanto eles deste lado do oceano a tentaram animar pela chamada de video-conferência, mesmo longe foi-lhe possível assistir ao momento de abertura dos presentes.
Retornou ao seu quarto para buscar a mala. Ficou olhando seu marido que dormia sossegado. Sentou-se na berma da cama. Não queria mesmo ir. Olhou para o telemóvel, e se ligasse a dizer que se sentia indisposta? E se não fosse? Hesitou uma vez, outra vez. Viu os minutos no visor a passarem cada vez mais rápido. Aproximava-se cada vez mais a hora de partida. Encostou seus lábios no seu marido, beijando-o levemente. Vestiu o casaco, pegou na mala, estava pronta para sair.
Sentiu o telemóvel a vibrar no bolso. Olhou para o visor, era da companhia.
- Helena, já vens a caminho? - perguntou a operadora
- Não ainda estou em casa, ia sair agora.
- Houve um problema a nível das escalas de serviço, afinal não estás destacada para viajares hoje. Desculpa o transtorno mas houve um lapso no sistema.
- Ah... bem nem sabes como fico feliz com essa noticia, estava a custar-me imenso sair de casa hoje.
- Já não precisas. Volta para a cama, agora só entras a serviço próxima terça feira. Até lá!
Desligou. Sentia-se deveras aliviada. Despiu-se e enfiou-se na cama ao lado do marido. Adormeceu.
No dia seguinte seu marido acordou-a bruscamente.
- Helena acorda! - chamou-a
- Hmmm? Que se passa? - perguntou ensonada
- Não ias fazer o voo para os estados Unidos?
- Sim ia mas ligaram-me a dizer que tinha sido engano nas escalas e eu não estava destacada.
- Acabei de ver nas noticias, houve um acidente. Várias mortes... - seu marido olhava-a emocionado
- O voo? O meu voo? - perguntou enquanto uma sensação de pânico a invadia
- Sim querida, sim! Quis o destino que não estivesses lá dentro, sabe-se lá o que te podia ter acontecido.
- Meu Deus! - começou a tremer involuntariamente. Estava em choque! Lembrou-se da sua angústia na noite anterior, lembrou-se do seu receio em ir. Lembrou-se do alívio que sentira por não estar destacada.
Deixou que seu marido a tomasse nos seus braços, enquanto chorava. Chorava pela ironia do destino que a poupara a uma eminente morte, mas colocara outra pessoa em seu lugar. Pensou na crueldade em que põe e dispõe de vidas, que não passámos todos de bonecos à disposição do destino....
Esta era a sua profissão, a sua carreia, o seu sonho? Mas quanto lhe estava a custar isto tudo? Viver a maior parte dos dias afastada de quem amava? Tinha sido aliciante nos seus tempos de solteira, em que viajar ainda a conseguia surpreender, em que vibrava com a chegada a uma cidade diferente. Agora todas essas emoções se evaporaram, deram lugar à angústia de ter que deixar os seus amores sem certezas do retorno. Já não se sentia segura na profissão, o medo de não ver crescer os seus meninos, não estar ao lado do marido a faziam estar mais consciente ainda dos riscos que corria diariamente. Valeria a pena?
Caminhou descalça até ao quarto das crianças, estas dormiam sossegadas. Beijou-os ternamente, ficando a olhá-los dormir. Dormiam descansados, ignorantes da angústia que toldava o coração da mãe. Uma profissão que lhe permitia dar-lhes tudo o que era material, mas os fazia ficarem privados da única coisa que mais lhes fazia falta: o seu amor. Agradecia o marido compreensivo e dedicado que tinha. Ele era pai, ele era mãe. Havia meses em que ela estava constantemente ausente. Pensou ironicamente que muitas mulheres se queixam da ausência dos maridos, neste caso era ela a ausente. Ainda tinha bem fresco na sua memória o último Natal que ficara retida num aeroporto em New York, sem possibilidades de retorno devido às más condições climatéricas, o que chorara naquela noite. O quanto eles deste lado do oceano a tentaram animar pela chamada de video-conferência, mesmo longe foi-lhe possível assistir ao momento de abertura dos presentes.
Retornou ao seu quarto para buscar a mala. Ficou olhando seu marido que dormia sossegado. Sentou-se na berma da cama. Não queria mesmo ir. Olhou para o telemóvel, e se ligasse a dizer que se sentia indisposta? E se não fosse? Hesitou uma vez, outra vez. Viu os minutos no visor a passarem cada vez mais rápido. Aproximava-se cada vez mais a hora de partida. Encostou seus lábios no seu marido, beijando-o levemente. Vestiu o casaco, pegou na mala, estava pronta para sair.
Sentiu o telemóvel a vibrar no bolso. Olhou para o visor, era da companhia.
- Helena, já vens a caminho? - perguntou a operadora
- Não ainda estou em casa, ia sair agora.
- Houve um problema a nível das escalas de serviço, afinal não estás destacada para viajares hoje. Desculpa o transtorno mas houve um lapso no sistema.
- Ah... bem nem sabes como fico feliz com essa noticia, estava a custar-me imenso sair de casa hoje.
- Já não precisas. Volta para a cama, agora só entras a serviço próxima terça feira. Até lá!
Desligou. Sentia-se deveras aliviada. Despiu-se e enfiou-se na cama ao lado do marido. Adormeceu.
No dia seguinte seu marido acordou-a bruscamente.
- Helena acorda! - chamou-a
- Hmmm? Que se passa? - perguntou ensonada
- Não ias fazer o voo para os estados Unidos?
- Sim ia mas ligaram-me a dizer que tinha sido engano nas escalas e eu não estava destacada.
- Acabei de ver nas noticias, houve um acidente. Várias mortes... - seu marido olhava-a emocionado
- O voo? O meu voo? - perguntou enquanto uma sensação de pânico a invadia
- Sim querida, sim! Quis o destino que não estivesses lá dentro, sabe-se lá o que te podia ter acontecido.
- Meu Deus! - começou a tremer involuntariamente. Estava em choque! Lembrou-se da sua angústia na noite anterior, lembrou-se do seu receio em ir. Lembrou-se do alívio que sentira por não estar destacada.
Deixou que seu marido a tomasse nos seus braços, enquanto chorava. Chorava pela ironia do destino que a poupara a uma eminente morte, mas colocara outra pessoa em seu lugar. Pensou na crueldade em que põe e dispõe de vidas, que não passámos todos de bonecos à disposição do destino....
Thursday, July 29, 2010
Flores no Cabelo
Ele passava por ela todos os dias. Ela vivia indiferente à sua presença. Todos os dias ela caminhava acelerada calçada fora, sempre olhando o relógio demonstrando que estava atrasada. Todos os dias ele esperava por ela, debaixo do toldo do café da esquina. Seu coração batia mais forte quando a avistava no inicio da rua. Passo apressado, sempre bem arranjada, telemóvel na mão, cabelo solto ao vento, seus caracóis caíam em grandes cachos ao redor do seu rosto. Nos seus caracóis o pormenor que mais o deliciava, as flores no cabelo. Pequenas, discretas tal como ela. Mas no seu todo produziam um efeito visual magnífico.
Ela passava por ele, nunca o via. Ou se via fingia não ver. Nunca os olhares se cruzaram, nunca por momento algum ela pareceu vê-lo dia após dia à sua espera. Um dia trouxera-lhe uma flor, ficou ali de flor na mão à sua espera. Mas nesse dia ela não viera. E ele ficou triste. Caminhou cabisbaixo até ao escritório, subiu as escadas. O mesmo frenesim de sempre o envolvia, pessoas a correr de um lado para o outro. Olhou para a secretária dela. Ela já lá estava, ficou surpreso. Dirigiu-se à sua própria secretária, a flor ainda na sua mão.
- Vens tarde hoje - comentou ela
Olhou-a estupefacto. Nunca trocaram uma palavra, ele pensava que ela nem sabia da sua existência.
- Hmmm - balbuciou... não conseguindo estruturar uma frase.
- Não te vi hoje na esquina. - comentou enquanto lhe piscava o olho - Que linda flor é para mim?
Ele olhou-a bem fundo nos olhos. Num gesto de atrevimento aproximou-se, pegou no gancho que lhe segurava uma madeixa de cabelo e prendeu lá a sua flor.
- Fica-te muito melhor uma flor natural! - disse ele ao mesmo tempo que soltava o caracol que segurava entre os dedos. - Porque nunca falas-te comigo antes?
- Porque só hoje quando passei por aquela esquina e não te vi lá, me apercebi que me fazias falta. A tua presença diária dá-me segurança, o teu olhar coragem. E aquela esquina nunca me pareceu tão triste como hoje, sem tu ali.
- Mas tu nem me vias. Passavas por mim e nem um bom dia.
- Ah mas eu via, vi-te todos os dias que esperavas por mim. Vi-te nos dias de sol, vi-te nos dias de chuva. Mas não te vi hoje. Onde estavas?
- Mas eu estive lá, como sempre à mesma hora.
Olhou para o relógio nervoso, que teria acontecido? Ele não se atrasara. Corou, sentindo-se envergonhado: - Esqueceu-me que mudava a hora! - confessou
Riram-se os dois. Ela convidou-o para um café, ele aceitou. Juntos desceram ao café da esquina.
Ela passava por ele, nunca o via. Ou se via fingia não ver. Nunca os olhares se cruzaram, nunca por momento algum ela pareceu vê-lo dia após dia à sua espera. Um dia trouxera-lhe uma flor, ficou ali de flor na mão à sua espera. Mas nesse dia ela não viera. E ele ficou triste. Caminhou cabisbaixo até ao escritório, subiu as escadas. O mesmo frenesim de sempre o envolvia, pessoas a correr de um lado para o outro. Olhou para a secretária dela. Ela já lá estava, ficou surpreso. Dirigiu-se à sua própria secretária, a flor ainda na sua mão.
- Vens tarde hoje - comentou ela
Olhou-a estupefacto. Nunca trocaram uma palavra, ele pensava que ela nem sabia da sua existência.
- Hmmm - balbuciou... não conseguindo estruturar uma frase.
- Não te vi hoje na esquina. - comentou enquanto lhe piscava o olho - Que linda flor é para mim?
Ele olhou-a bem fundo nos olhos. Num gesto de atrevimento aproximou-se, pegou no gancho que lhe segurava uma madeixa de cabelo e prendeu lá a sua flor.
- Fica-te muito melhor uma flor natural! - disse ele ao mesmo tempo que soltava o caracol que segurava entre os dedos. - Porque nunca falas-te comigo antes?
- Porque só hoje quando passei por aquela esquina e não te vi lá, me apercebi que me fazias falta. A tua presença diária dá-me segurança, o teu olhar coragem. E aquela esquina nunca me pareceu tão triste como hoje, sem tu ali.
- Mas tu nem me vias. Passavas por mim e nem um bom dia.
- Ah mas eu via, vi-te todos os dias que esperavas por mim. Vi-te nos dias de sol, vi-te nos dias de chuva. Mas não te vi hoje. Onde estavas?
- Mas eu estive lá, como sempre à mesma hora.
Olhou para o relógio nervoso, que teria acontecido? Ele não se atrasara. Corou, sentindo-se envergonhado: - Esqueceu-me que mudava a hora! - confessou
Riram-se os dois. Ela convidou-o para um café, ele aceitou. Juntos desceram ao café da esquina.
Thursday, July 15, 2010
Momento: a duas vozes (parte XXV)
ELE
Um súbito telefonema de Ana deixou-me angustiado. A sua saúde já fragilizada com a perda da filha começava a piorar. A doença que julgáramos vencida estava agora em vias de voltar a atormentar-nos. Logo que me foi possível arranquei para casa dela. Sofia estava comigo. Incrível a capacidade que as crianças têm de se abstrair do que as rodeia, era como se a minha filha vivesse num mundo apenas dela, inconsciente do que se passava à sua volta. De certa forma era um alívio para mim. Se fosse porventura mais velha, faria com certeza mais perguntas, não entenderia porque a avó não queria brincar com ela, porque os seus olhos estavam negros e sem vida.
Sentei-me no sofá ao seu lado. No espaço de uma semana a mulher que eu sempre conhecera como forte, parecia um trapo velho amarrotado. Segurei-lhe a mão com carinho. Sofia no meu colo tentava a todo custo saltar para o colo da avó, repreendia. Fez beicinho como só ela sabia fazer.
- Deixa-a estar, anda à avó querida... - deixei-a deitar-se ao seu lado. Encostou a cabeça em seu peito, seus dedinhos desalinhando o cabelo da avó. Senti um ligeiro aperto no peito por presenciar aquela cena. Dei comigo a pensar que seria injusto para a minha filha mais alguém lhe ser roubado. Era uma probabilidade. Ana sabia que se eventualmente a doença reaparecesse não teria condição física de a combater, escapara à uma década atrás e dizia ser uma grande felizarda por isso. Na sua curta vida Sofia já sofrera a perda da mãe, de Marylin e agora da avó. Eram demasiadas perdas.
- Como se sente hoje? - perguntei-lhe
- Cansada... apenas cansada. Sabes Helder eu sempre estive à espera deste momento, nunca me convenci que iria sair completamente vencedora. Agora percebo que a doença entrou em remissão sim, mas porque eu tinha ainda algo a cumprir aqui na terra antes de partir. Eu tinha que estar ao lado dos últimos dias da minha filha, ver os primeiros passos da minha neta. Agora que a minha filha já partiu, a minha neta já não precisa tanto de mim, a minha doença resolveu reaparecer. Como se tivesse cumprido a minha meta aqui na terra.
- Ana, não diga uma coisa dessas. Vamos lutar, vamos fazer o que for possível para a ajudar. A medicina hoje em dia..
- Ah Helder eu não sei se tenho forças para lutar. Tu ainda não estavas na nossa vida quando passei a primeira vez por isto, não sabes o que dói veres o teu marido, filha a sofrer por te ver sofrer. Não sei se quero viver isso outra vez, não sei se quero.
- Mas tem o seu marido, neta, eles precisam de si... - argumentei eu - eu preciso de si!
- Meu querido tudo nesta vida passa, dói, mas a vida continua. E vocês poderão continuar com a vossa vida mesmo depois de eu partir.Chama-se lei da vida, por mais injusta que possa parecer.
Olhei-a nos olhos. Falava com convicção, mais emocional que racional. Olhei a minha menina que entretanto adormecera nos braços da avó. Estaria a vida a brincar comigo, um constante dá e tira? Um barulho chamou a minha atenção, Pedro chamava-me da entrada da porta. Levantei-me, deixei-as sós.
Estava com um olhar triste, ausente, seu cabelo em desalinho, expressão ausente, de quem não pregava olho desde que soubera a noticia. Sentamos no alpendre cá fora alheios à beleza que nos rodeava. O sol desaparecia por detrás da montanha, pincelando o céu de cores lindas. Em silêncio partilhámos aqueles momentos em que apenas o som da natureza ecoava em nós.
- Duro golpe hem? - iniciou ele a conversa
- Sim, não estávamos mesmo à espera. Que disse o médico em concreto? - perguntei-lhe
- Oh disse aquilo que não queríamos ouvir, que andámos a ignorar. Que reapareceu o tumor, que seria difícil de operar novamente. Aquelas conversas de médico quando sabe que não à mais nada a fazer. Ana recusa qualquer tipo de tratamento que acelere a sua partida ou diminua a sua qualidade de vida. Um amigo médico falou-me numa clínica em Londres onde costumam operar casos destes com êxito. Estou disposto a desfazer-me de tudo, desta casa, do que for necessário para tentar, mas ela não quer.
- Vai ver que ela vai acabar por ceder, vai ver que sim.
- Espero bem que sim Helder, não queria perder a minha mulher desta forma, não para este monstro que já a tentou levar uma vez....
Dei-lhe uma palmada no ombro em jeito de alento, em jeito de coragem. Olhámos ambos para o firmamento incertos do que nos esperava a seguir.
Um súbito telefonema de Ana deixou-me angustiado. A sua saúde já fragilizada com a perda da filha começava a piorar. A doença que julgáramos vencida estava agora em vias de voltar a atormentar-nos. Logo que me foi possível arranquei para casa dela. Sofia estava comigo. Incrível a capacidade que as crianças têm de se abstrair do que as rodeia, era como se a minha filha vivesse num mundo apenas dela, inconsciente do que se passava à sua volta. De certa forma era um alívio para mim. Se fosse porventura mais velha, faria com certeza mais perguntas, não entenderia porque a avó não queria brincar com ela, porque os seus olhos estavam negros e sem vida.
Sentei-me no sofá ao seu lado. No espaço de uma semana a mulher que eu sempre conhecera como forte, parecia um trapo velho amarrotado. Segurei-lhe a mão com carinho. Sofia no meu colo tentava a todo custo saltar para o colo da avó, repreendia. Fez beicinho como só ela sabia fazer.
- Deixa-a estar, anda à avó querida... - deixei-a deitar-se ao seu lado. Encostou a cabeça em seu peito, seus dedinhos desalinhando o cabelo da avó. Senti um ligeiro aperto no peito por presenciar aquela cena. Dei comigo a pensar que seria injusto para a minha filha mais alguém lhe ser roubado. Era uma probabilidade. Ana sabia que se eventualmente a doença reaparecesse não teria condição física de a combater, escapara à uma década atrás e dizia ser uma grande felizarda por isso. Na sua curta vida Sofia já sofrera a perda da mãe, de Marylin e agora da avó. Eram demasiadas perdas.
- Como se sente hoje? - perguntei-lhe
- Cansada... apenas cansada. Sabes Helder eu sempre estive à espera deste momento, nunca me convenci que iria sair completamente vencedora. Agora percebo que a doença entrou em remissão sim, mas porque eu tinha ainda algo a cumprir aqui na terra antes de partir. Eu tinha que estar ao lado dos últimos dias da minha filha, ver os primeiros passos da minha neta. Agora que a minha filha já partiu, a minha neta já não precisa tanto de mim, a minha doença resolveu reaparecer. Como se tivesse cumprido a minha meta aqui na terra.
- Ana, não diga uma coisa dessas. Vamos lutar, vamos fazer o que for possível para a ajudar. A medicina hoje em dia..
- Ah Helder eu não sei se tenho forças para lutar. Tu ainda não estavas na nossa vida quando passei a primeira vez por isto, não sabes o que dói veres o teu marido, filha a sofrer por te ver sofrer. Não sei se quero viver isso outra vez, não sei se quero.
- Mas tem o seu marido, neta, eles precisam de si... - argumentei eu - eu preciso de si!
- Meu querido tudo nesta vida passa, dói, mas a vida continua. E vocês poderão continuar com a vossa vida mesmo depois de eu partir.Chama-se lei da vida, por mais injusta que possa parecer.
Olhei-a nos olhos. Falava com convicção, mais emocional que racional. Olhei a minha menina que entretanto adormecera nos braços da avó. Estaria a vida a brincar comigo, um constante dá e tira? Um barulho chamou a minha atenção, Pedro chamava-me da entrada da porta. Levantei-me, deixei-as sós.
Estava com um olhar triste, ausente, seu cabelo em desalinho, expressão ausente, de quem não pregava olho desde que soubera a noticia. Sentamos no alpendre cá fora alheios à beleza que nos rodeava. O sol desaparecia por detrás da montanha, pincelando o céu de cores lindas. Em silêncio partilhámos aqueles momentos em que apenas o som da natureza ecoava em nós.
- Duro golpe hem? - iniciou ele a conversa
- Sim, não estávamos mesmo à espera. Que disse o médico em concreto? - perguntei-lhe
- Oh disse aquilo que não queríamos ouvir, que andámos a ignorar. Que reapareceu o tumor, que seria difícil de operar novamente. Aquelas conversas de médico quando sabe que não à mais nada a fazer. Ana recusa qualquer tipo de tratamento que acelere a sua partida ou diminua a sua qualidade de vida. Um amigo médico falou-me numa clínica em Londres onde costumam operar casos destes com êxito. Estou disposto a desfazer-me de tudo, desta casa, do que for necessário para tentar, mas ela não quer.
- Vai ver que ela vai acabar por ceder, vai ver que sim.
- Espero bem que sim Helder, não queria perder a minha mulher desta forma, não para este monstro que já a tentou levar uma vez....
Dei-lhe uma palmada no ombro em jeito de alento, em jeito de coragem. Olhámos ambos para o firmamento incertos do que nos esperava a seguir.
Friday, July 9, 2010
Nas minhas mãos
"Peguei nele com cuidado. Maltratado e ferido, tal era o estado em que se encontrava. Com cuidado para não o magoar, desinfectei-lhe as feridas. Algumas eram feias e profundas. Havia algumas bem antigas, outras notavam-se ser recentes. Preocupou-me as mais recentes, pois ainda estavam frescas, ainda se notava que estavam expostas. Eram as que lhe doíam mais. Peguei nele nas minhas mãos, amparei-o. Falei com ele, expliquei-lhe que era inevitável as dores que sentia, que iria minimizar a sua dor o melhor possível. Parecia pequeno e frágil por fora. Mas por dentro eu sabia-o ser grande e forte. Apesar da facilidade com que abria feridas, não tinha noção por vezes da sua capacidade de se regenerar. Seus batimentos eram pausados, quase inaudíveis. Parei para escutar. Acaricei-o com gestos delicados, a sua fragilidade, a sua mágoa ali latente. Tentava ocultar a sua dor, apesar da aparente jovialidade, se os outros olhassem bem para o fundo do seu ser veriam a mágoa que o consumia, que o desgastava. Fiquei ali com ele nas minhas mãos. Ainda o tenho nas minhas mãos, o meu Coração " Bela
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