Monday, November 30, 2009

Momento: a duas vozes (parte VI)

ELA

O telefone voltou mais uma vez a vibrar. Olhei para a minha colega, ela olhando me de volta com olhar interrogador.
- Vais continuar a ignorá-lo? - perguntou - me
Peguei no telefone. Acedi ao menu das mensagens e li: "JÁ É A QUARTA MENSAGEM QUE TE ENVIO HOJE, CONTINUAS SEM ME RESPONDER. ENTÃO RESOLVI AGIR. ESTOU Á TUA ESPERA NO ESTACIONAMENTO. ACHO BEM QUE TE DESPACHES A DESCER, ESTÁ A CHOVER MUITO E EU NÃO QUERO FICAR ENGRIPADO".
- Ele está aqui - baluciei eu para ela
- Aqui? aqui onde? - perguntou levantando-se da secretária e chegando á janela
- No estacionamento. Penso que perto do meu carro.
Olhamos ambas pela janela. Tinha estacionado mesmo no ângulo de visão da janela. Sim ele estava lá á minha espera. Encostado ao meu carro. E sim chovia bastante.
- Que faço? - perguntei
- Que pergunta, vais ver o que ele quer. Ou vais deixá-lo ali á chuva?
- Mas eu não posso sair agora, vai me ligar o cliente do Contrato de Londres e eu tenho que falar com ele hoje sem falta. O chefe quer agendar a reunião para a semana que vem e tem que se ultimar os pormenores.
- Vai Marylin, eu resolvo-te isso. Faz um favor a ti mesma e resolve este assunto de uma vez por todas. Já deu para ver que ele não vai desistir, a menos que queiras ficar com a consciência pesada caso ele realmente fique doente. Vai.
Agarrei nas minhas coisas, saindo a correr. Na saída quase me esbarrei com o chefe que vinha a entrar.
- Marylin, preciso que.... - começou ele
- Agora não chefe, a Rute trata de tudo. Eu tenho que sair.
Desci as escadas a correr, sem voltar a olhar para trás. Não vi o seu olhar de incredulidade, nem tão pouco o seu encolher de ombros. Não me recordo como cheguei á beira dele tão depressa. Estava ofegante, afinal ainda eram alguns andares e eu com a pressa até me esqueci de descer pelo elevador. Custava me respirar, tive que esperar alguns segundos para me recompor.
- Que queres?
- Quero falar contigo. Vim ver-te. - respondeu sorrindo me
- Não podias esperar pelo fim do dia? - perguntei, enquanto abria o guarda - chuva para nos abrigar aos dois. Se ele não queria ficar doente, eu certamente que também não queria.
- Aonde vamos temos que ir cedo. Fecha ás 17.
- Vamos? ah não vamos não. Eu tenho que voltar para o meu trabalho. Ainda não são horas de eu sair.
- Hoje não voltas ao trabalho. - disse me enquanto estendia a mão para eu lhe dar a chave do carro
- Helder, só podes estar a brincar comigo. Eu não vou de forma nenhuma sair do trabalho a meio da tarde, para dar uma volta de carro contigo. Mas é que nem penses.
- Nem se eu pedir por favor? - olhou me de tal forma intensamente que o meu coração disparou - É muito importante para mim.
Olhei para ele, desviei o olhar para a minha janela. Rute olhava-nos curiosa. Interroguei-a com o olhar. Conheciamo-nos há algum tempo, entre nós bastava apenas um olhar. Aquiesceu que sim. Que me substituiria.
Entreguei lhe as chaves do carro, dei a volta, sentando me no lugar do passageiro.
O silêncio instalou-se. Olhei para ele de soslaio. Tentei vislumbrar algum sinal de vitória, por eu ter acedido. Seu rosto estava indecifrável. Um estranho frio no fundo da barriga se instalou. Como eu destestava sentir esse friozinho. Nunca era sinal de algo bom. Olhei pela janela, cada vez chovia mais. Nem o tempo ajudava. O trânsito estava caótico. Com destreza e pericia, conduziu o carro pelo meio da confusão, sempre certo do caminho que tomava. Depressa chegamos ao destino. Olhei ao meu redor, reconheci onde estavamos. Olhei para ele com ar interrogador.
- Não me faças perguntas para já. Promete me que não me irás perguntar nada, até eu disser que chegou a altura de tu fazeres as perguntas todas a que tens direito. Prometes?
- Sim - balbuciei, não muito certa de mim mesma.
Saimos ambos do carro. O meu olhar parou numa placa que dizia: "CEMITÉRIO MUNICIPAL". Estremeci. Não era um lugar em que me sentisse confortável. Ao entrarmos, procurou a minha mão. Entramos de mãos dadas naquele recinto que simboliza a morada eterna dos nossos corpos, quando as nossas almas se vão. Caminhamos por entre as várias secções, ele sempre seguro do local para onde se dirigia. Olhei em minha volta. As fotografias de toda aquela gente, os nomes, as datas, a minha visão absorvia tudo á minha passagem. Desde muito pequena, sempre que visitava o cemitério com a minha mãe, tinha por hábito ler o nome das pessoas falecidas e imaginar que tipo de pessoa tinham sido, como teria sido a sua vida, de que teriam morrido. Cemitérios não eram de forma alguma tabu para mim, infelizmente já tinha pisado esse mesmo terreno vezes sem conta. Aproximamo-nos de um lugar que me pareceu ser o nosso destino, pois o seu passo tornou-se menos acelerado. Paramos numa campa sobriamente decorada. Nada de exageros, aliás primava pela ausência de demasiados artefactos, ou flores excêntricas. Estava decorada com uns lindos lirios brancos que contrastavam com o negro da mármore. O meu olhar pousou nele. Ele olhava para a fotografia esculpida na mármore. Desviei meu olhar, seguindo o dele. Foi então que li:

MARIANA MONTEIRO - N.A. 2-9-1978 F.A. 23-06-2008

Olhei para ele novamente. De repente tomei consciência que a pessoa que se encontrava ao meu lado tinha um passado do qual eu não estaria totalmente a par. Pelo sobrenome não me foi impossível chegar á conclusão de quem se tratava. Só poderia ser sua irmã. Olhei para a fotografia. Um rosto sorridente, feliz, nos recebia. Linda. Simplesmente linda. Esmiucei a fotografia em busca de sinais semelhantes aos dele. Havia semelhanças, pelo menos eu via semelhanças.
- Quem é? - perguntei
Ele olhou-me. Uma lágrima escorreu por seu rosto. Meu primeiro impulso foi de beijar aquela lágrima. Não o fiz. Não ali, naquele lugar. Olhou me nos olhos, puxou me de encontro ao seu peito e sussurou me:
- Pedi-te que não me fizesses perguntas. Aqui não.
Ajoelhou-se, seu olhar ficando ao nível da fotografia, tapou o rosto com as mãos e gritou. Estremeci, nunca tinha sentido de perto o desespero de alguém. Senti me impotente, senti me a invadir sua privacidade. Ajoelhei me ao seu lado e também eu chorei.

2 comments:

Libelinha said...

E eu... Também chorei!... Lindo, envolvente!
Quero saber mais!...

Beijinhos ;P

Brown Eyes said...

Bela está a ficar a cada palavra mais interessante. Irmã? Ou será mulher? Beijinhos